Skip Navigation Links




À\G\D\G\A\D\U\
A.: R.: L.: S.: MONTE SIÃO N° 79
Oriente de Vitória / ES
                   Fundada em 20 de Agosto de 2003
 

SISTEMA INGLÊS DE RITUAL - EMULAÇÃO (YORK):
SER OU NÃO SER? EIS A QUESTÃO
 

Trabalho maçônico apresentado no V Congresso da Maçonaria Simbólica Capixaba – CMSC pelos Irs.: Alessandro Juffo Rodrigues e Roberley Carlos Polycarpo.

                                          





1.  INTRODUÇÃO


A maçonaria como ciência iniciática se exterioriza de várias formas diferentes, propiciando uma verdadeira universalidade de ritos e rituais. A maçonaria Inglesa, sendo o berço do sistema obediencial que atualmente praticamos, influenciou diretamente na criação de todas as potências que a sucederam e também os ritos que vieram a ser criados posteriormente. Não podemos compreender o rito ou ritual como um fim em si mesmo, mas, sem dúvida, foi a forma que a Maçonaria buscou para transmitir seus conhecimentos aos seus iniciados e, desta forma, passou a ser a Escola de Moral e Princípios mais interessante e completa que a sabedoria humana criou.

Assim, o problema apresentou-se inicialmente na análise das práticas ritualísticas, sob a égide do “pseudo” Rito de York, praticadas na Grande Loja Maçônica do Estado do Espírito Santo e sua conformidade com os padrões mundiais do rito. Para tal buscou-se na bibliografia referenciada elementos que indiquem melhor direcionamento das práticas ritualísticas de nossa Potência, mantendo-a sintonizada com as práticas, costumes e usos das Instituições Maçônicas de maior tradição mundial.

O objetivo geral foi o de buscar sugestões para correção das nossas atividades intra-templos, visando adequar futuramente nossa Potência à realidade mundial já consolidada, identificando possíveis aspectos a serem aperfeiçoados e sugerindo atualizações ao atual modelo. Para tanto este pequeno trabalho está estruturado em três capítulos, iniciando com uma breve alusão histórica da criação da potência Inglesa, Loja Mãe do mundo, e suas práticas ritualísticas mais comuns. No segundo capítulo buscou-se melhor conhecer o sistema maçônico inglês e as influências deste nas diversas potências mundiais que sucederam a Grande Loja da Inglaterra.

No último capítulo serão detalhadas as medidas necessárias para adequação das nossas práticas e rituais para o sistema Inglês, buscando purificação do rito no âmbito de nossa Potência e uma padronização com o que se pratica no Mundo e especialmente nas potências brasileiras mais próximas e reconhecidas pela Loja Mãe Mundial.


 
 2.  MAÇONARIA MODERNA
 
           2.1  BREVE HISTÓRICO DA MAÇONARIA INGLESA

 
Para entendimento completo do assunto proposto neste trabalho, necessário se faz relembrarmos os primórdios da transformação da maçonaria simbólica em especulativa e a criação do sistema obediencial na Inglaterra, sistema este que veio a direcionar o surgimento e organização de todas as potências mundiais, até a presente data. Como afirma o Irmão José Castellani (1985) a criação da primeira potência maçônica mundial ocorreu em 24 de junho de 1717, em Londres. A criação da Grande Loja da Inglaterra foi um acontecimento extremamente importante na História da franco-maçonaria, sendo o corolário de grandes transformações que iriam acontecer a partir daí.

Até 1717 as lojas maçônicas funcionavam de modo livre e independente, segundo a máxima “maçons livres em lojas livres”. Com a criação desta potência inaugurou-se o sistema obediencial, ou seja, as lojas passavam a se vincular a um poder central. Ainda segundo Castellani esta inovação não foi vista com bons olhos por todos os maçons ingleses e muitos ainda permaneceram independentes mantendo Lojas livres.

Em 1721 o escocês James Anderson, ministro da igreja presbiteriana, foi solicitado para que compilasse todos os antigos costumes, regulamentos e tradições da antiga maçonaria sendo o fruto deste trabalho declarado, em 1723, como “As Constituições dos Franco-Maçons, contendo a História, Obrigações, Regulamentos, etc., da Muito Antiga, Reta e Venerável Fraternidade, para o uso das Lojas”. Estava criada a Constituição da nova potência que basicamente, até hoje, não sofreu alterações, salvo revisão feita em 1815 por ocasião da reunificação na maçonaria inglesa, sendo reconhecida e aceita por todas as potências mundiais regulares como documento maçônico básico.
Consoante com pensamento acima a Constituição da Grande Loja Maçônica do Estado do Espírito Santo diz textualmente na sua declaração de princípios, contidos no art.34, inciso VI:


[...] VI – obediência aos “Landmarks”, às antigas constituições históricas e a tradição dos usos e costumes da maçonaria universal;




A nova potência desenvolveu-se e acabou por atrair muitos maçons e suas Lojas. Outros, porém, ainda desconfiados com o novo sistema se mostravam insatisfeitos com o que julgavam inovações e por volta da metade do século XVII havia um razoável número de Lojas que ainda estavam independentes e continuavam com suas práticas cerimoniais sem se deixar influenciar pela Grande Loja então existente.

Como forma de defender práticas que julgavam estarem sendo contaminadas, maçons da Inglaterra, mas na sua maioria Irlandeses ali estabelecidos, criam em 17 de julho de 1751 uma nova Grande Loja que autodenominaram dos “Antigos”, rivalizando com a anteriormente criada que chamavam pejorativamente de “Modernos”. As duas potências desenvolvem-se, chegando em 1755 com o número de 46 (quarenta e seis) Lojas na Grande Loja dos “Antigos” e 269 (duzentos e sessenta e nove) na primeira Grande Loja (“modernos”).

Na segunda metade do século XVII a Grande Loja dos Antigos, também conhecida a época como Grande Loja de York pois muitos maçons eram desta região da Inglaterra, alcançou certo progresso e desenvolvimento graças a um eminente maçom irlandês chamado Laurence Dermott. Dermott ocupou o cargo de Grande Secretário da Grande Loja dos Antigos e influenciou grande número de maçons, sendo um líder e grande defensor dos antigos costumes e princípios da maçonaria.

As críticas mais contundentes deste atuante maçom dirigidas aos chamados “modernos” foram as seguintes: preparação incorreta do candidato; abreviação das cerimônias; omissão das orações; omissão das preleções e dos sermões; omissão da leitura das Antigas obrigações aos iniciados; transposição dos meios de reconhecimento do primeiro e do segundo grau; uso de palavra incorreta do grau de mestre maçom; descristianização do ritual; omissão das comemorações dos dias santos (São João Batista e São João Evangelista); decoração incorreta dos templos; abandono da cerimônia de instalação do mestre instalado; etc.

Outro grande, talvez o principal, ponto de atrito entre as duas criadas potências inglesas decorreu das divergências quanto ao Real Arco (Royal Arch), considerado por alguns como um quarto grau, mas hoje pacificado como uma extensão do mestrado (grau colateral). Não se sabe a origem certa deste grau, mas de fato os maçons “antigos” o usaram com bastante propriedade para aumentar o interesse de todos os maçons, inclusive dos “modernos”, neste que pretendia ser o fechamento do ciclo do grau de mestre. O Real Arco ganhou grande projeção na Inglaterra no final do século XVII levando maçons da Grande Loja dos “Modernos”, que não o reconhecia, a decidirem por criar um Capítulo independente de Real Arco de modo a rivalizar com a Grande Loja dos “Antigos” que era quem administrava suas cerimônias.

Segundo ANATOLY (2004) após 63 (sessenta e três) anos de rivalidade as duas Grandes Lojas conseguiram superar suas diferenças e unificarem-se. Este processo não foi fácil. Iniciado em 1790 começou a colher seus primeiros frutos em 1809 quando comissões para a reunificação foram criadas nas duas potências. Em 1813, de modo brilhante, são elevados ao cargo de Grão Mestre das duas potências dois irmãos consangüíneos. O Duque de Sussex se torna o Grão Mestre da Primeira Grande Loja e seu irmão, o Duque de Kent, se tornou Grão Mestre da Grande Loja dos “Antigos”. Com esta habilidade diplomática em pouco mais de seis semanas organizaram-se os acordos para a reunificação, que ocorreu em data de 27 de dezembro de 1813.

 
 
          2.2   ORIGEM DO RITUAL EMULAÇÃO

 

Criada a Grande Loja Unida da Inglaterra – GLUI suas cerimônias basearam-se nos métodos de trabalho dos “antigos” que se autodenominavam maçons de “York”. 

O Real Arco passa a ser aceito e funciona em Capítulos separados, porém ligados, a potência principal. Ainda segundo ANATOLY após a unificação foi criada uma Loja de Reconciliação de forma a produzir um ritual padrão a ser usada por toda a obediência. Por dois anos esta Loja deliberou sobre a forma correta de praticar as cerimônias sendo que em 1816 suas recomendações foram aceitas pela Grande Loja e sua prática determinada para todas as Lojas.

Tradicionalmente a GLUI não permite a impressão de qualquer ritual, sendo seu conteúdo passado somente oralmente, o que de certa forma ocasionou pequenas alterações locais. De qualquer modo após três anos de apresentações ininterruptas o ritual foi praticamente padronizado em toda a Inglaterra. 
Sobre isso, comenta Sandbach (2005, p. 18):

A seguir uma palavra sobre rituais. Nenhuma origem sobrenatural é atribuída a eles. É bem sabido que eles evoluíram durante longo período e que as versões atualmente em uso surgiram a partir de 1813, quando duas Grandes Lojas rivais, em Londres, uniram-se formando a Grande Loja Unida da Inglaterra, tendo Grão Mestre o HRH Duque de Sussex. Ele era um cristão praticante, um notável estudioso do hebraico e um aplicado franco-maçom que pensou profundamente sobre o caráter e o espírito da Arte, e sustentava que, como um sistema de moralidade, ela deveria ser aberta, independentemente do credo, a todos aqueles que acreditam na criação sobrenatural do mundo. Ele criou comissões, nas quais se incluíam também padres anglicanos, para reorganizar o Ritual segundo os seus pontos de vista. Os Rituais assim originados têm sido praticados a partir dessa época, de forma ininterrupta, até os dias de hoje.
 







 
                                                                                        
 


Em 02 de outubro de 1823 membros de duas Lojas ingleses se reúnem pela primeira vez na “Emulation Lodge Of Improvement for Master Masons” (Loja Emulação de Aperfeiçoamento de Mestres Maçons) com a finalidade de prover instruções para os maçons que fossem ocupar cargos em Loja ou assumirem a Cadeira. Desta forma a prática ritualística, ritual emulação, recebeu seu nome da Emulation Lodge que se tornou curadora do “rito” por delegação da GLUI.

É preciso ressaltar que a prática maçônica inglesa é inominada, não recebendo o nome de rito. Na verdade as práticas ritualísticas, chamadas ritual, são de responsabilidades das Lojas desde que estas não contrariem nenhuma norma expressa na Constituição e nos Regulamentos. Assim iremos encontrar várias práticas rituais em regiões distintas da área jurisdicionada da GLUI, como: Stability, Bristol, Oxford, Logic, etc. Destas a que predomina é, sem dúvida, o emulation ritual.

A Loja de Emulação de Aperfeiçoamento é a curadora desta prática ritualística até os dias atuais, provendo instruções, ensaios de cerimônias e dando todo o suporte para perpetuação das formas de trabalho.

 
 
         2.3   RITAL EMULAÇÃO X RITO DE YORK

 

O ritual emulação foi introduzido no Brasil por lojas inglesas, jurisdicionadas a GLUI, por volta de 1833, sendo a primeira delas a Orphan Lodge. Já no início do século XX existiam no Brasil cerca de 8 (oito) Lojas inglesas, jurisdicionadas a GLUI, trabalhando no Ritual Emulação no Brasil.

Em 1912 a GLUI firma tratado com o GOB para a criação de um Grande Capítulo no Brasil e no documento timbrado, com textos em inglês e português, os autores cometeram um equívoco que nos fizeram, talvez, ter que escrever este trabalho. Ocorre que do original inglês Grand Council of Craft Masonry in Brazil (Grande Conselho da Arte Maçônica no Brasil) a tradução usada foi Grande Capítulo do Rito de York. Como a Grande Loja da Inglaterra tinha interesse no acordo para ela pouco importou o uso do nome Rito de York.

Ainda devido ao interesse de muitos maçons brasileiros no sistema inglês, alguns membros do Grande Oriente do Brasil, em 1920, fizeram uma tradução que foi impressa na Inglaterra e aprovada e sancionada pelo GOB em que a denominação RITO DE YORK acabou se consagrando e servindo para designar, na verdade, o ritual emulação praticado pela Grande Loja Unida da Inglaterra. Assim, de modo errôneo, associou-se a prática inglesa ao termo Rito de York, expressão esta que não é usada nem reconhecida pela Inglaterra, pois no sistema inglês o rito é inominado. Popularizado que ficou o termo Rito de York, este passou a ser difundido pelas diversas potências regulares no Brasil mantendo a expressão equivocada do início.

O Rito de York (York Rite), mais adequadamente, é o nome dado ao rito praticado pelas Grandes Lojas Americanas, em especial após sua codificação e padronização feita em 1797 por Thomas Smith Webb, e que foi inspirado nas práticas ritualísticas mantidas pelos “antigos” da Inglaterra e levadas ao novo continente. Os americanos consideram sua prática ainda mais antiga que a dos ingleses pois foi padronizada antes da unificação das duas Grandes Lojas da Inglaterra o que veio a ocorrer somente em 1813. No Brasil, com raras exceções, quando ouvimos a expressão Rito de York estaremos na verdade nos referindo ao ritual emulação, de origem inglesa.

De cerca de 100 (cem) lojas que trabalham no Rito de York (ritual emulação) apenas em tono de 03 ou 04 adotam o sistema americano. Segundo o portal maçônico Rito de York (
www.ritodeyork.com.br) funcionaram até hoje no Brasil somente 03 (três) Lojas que praticam o rito americano, verdadeiramente o Rito de York (York Rite). Destas, somente duas, a loja Phoenix da Grande Loja de Rondônia e a Loja Cavaleiros do Sol da Grande Loja da Paraíba, ainda estão ativas e trabalhando no rito americano. Fácil é perceber então que as demais Grandes Lojas, inclusive a do Espírito Santo, e o próprio GOB, praticam o ofício maçônico inglês, ritual emulação.

No caso das Grandes Lojas é preciso destacar que duas importantes potências brasileiras, a Grande Loja Maçônica do Rio de Janeiro e a Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo, ambas reconhecidos pela Grande Loja Unida da Inglaterra, trabalham no ritual emulação. Na potência Maçônica paulista, em especial, verificou-se imenso desenvolvimento no ritual emulação, apoiado e incentivado pela alta administração da Grande Loja. No informativo da GLMESP “Grande Loja em Destaque” edição de Novembro de 2003 há importante matéria sobre o desenvolvimento do ritual emulação no estado São Paulo. Como forma de estimular a criação de novas lojas que adotassem esta prática, o Grão Mestre da GLMESP á época procurou criar todo tipo de facilidade para colocar a Instituição Paulista no mesmo nível de proporcionalidade mundial para as práticas rituais. Fora do Brasil estima-se que 80% das Lojas trabalhem ou no Ritual Emulação ou no Rito de York (americano). Outro passo importante dado pela Grande Loja do Estado de São Paulo para consolidação dos trabalhos de emulação em seus templos foi a criação, desde 1999, do Supremo Grande Capítulo Real Arco do Estado de São Paulo. Este Grande Capítulo foi consagrado pelo Capítulo do Real Arco da Espanha o qual tem poder de consagrar outros Grandes Capítulos em qualquer lugar do mundo. Em 2003 já existiam sete capítulos criados dentro do estado São Paulo.

Na Grande Loja Maçônica do Estado do Espírito Santo o Ritual Emulação, com o nome de Rito de York, foi introduzido pela Loja Tiradentes Nº 65, fundada em 20 de abril de 1996, com irmão pioneiros e na vanguarda da necessidade de buscarmos aproximação com as práticas ritualísticas mundiais. Como fruto do interesse de irmãos em desenvolver ainda mais o rito no âmbito da nossa potência maçônica foi fundada em 20 de agosto de 2003 a Loja Maçônica Monte Sião Nº 79 também trabalhando no ritual emulação. Não deixando dúvida sobre a escolha á época da introdução do “rito” na GLMEES o ritual das Lojas do “Rito de York” (Ritual do Grau de Aprendiz Maçom - GLMEES) consta na sua capa, abaixo do texto Rito de York, a expressão EMULAÇÃO. Fica consolidado que a escolha foi para a prática inglesa, optando-se pelo nome Rito de York em face de tradição, equivocada, que se consagrou no Brasil. Mas afinal, se a prática escolhida pela Grande Loja é a inglesa por que então este trabalho? É o que discutiremos no capítulo seguinte.


 
 3.    O SISTEMA INGLÊS
 
          3.1   PADRONIZAÇÃO RITUAL

 
Segundo Harry Carr (2207, p. 75) as várias Grandes Lojas Americanas diferem quanto a suas abordagens dos métodos de instrução e difusão. Na Pensilvânia e Califórnia qualquer publicação de ritual é proibida, sendo a transmissão feita exclusivamente oralmente. Na Grande Loja do Kansas há publicação de um ritual, extremamente codificado, e, adicionalmente, distribui-se cartilha com as lições e explicações citadas de modo literal.

Não é preciso lembrar que os Estados Unidos possuem 50 (cinqüenta) Grandes Lojas, cada uma com seu próprio ritual e sua forma de transmissão, provocando sérias diferenças entre estas potências, natural pela autonomia que cada uma possui sobre o simbolismo, nas suas práticas ritualísticas.

Diferentemente, segundo o mesmo autor (2007, p. 150), o ritual emulação sofre, após a reunificação das Grandes Lojas dos “Antigos” e dos “Modernos”, uma padronização mundial derivada basicamente de dois fatores:

 
(a)     Como uma Loja de Instrução, ele (Loja de Emulação) remonta a 1823, com contínua existência, desde então.
(b)     Hoje, é o mais organizado de todos os “denominados”, tendo um corpo governante para “protegê-lo” através da               história, sendo a esse respeito, creio eu, mais avançado de que qualquer outro dos assim chamados rituais.

Desta forma com o trabalho constante da Loja Emulação de Aperfeiçoamento funciona como “curadora” do emulation ritual em todo o mundo, não interferindo na autonomia das Potências ou Lojas, no caso do sistema Inglês, quanto às adaptações julgadas necessárias, porém garantindo condições de uniformidade ao nortear todas as práticas ligadas ao ritual, desde 1823.
 

       3.2   REAL ARCO

 

Além dos graus iniciais, aprendiz, companheiro e mestre, o sistema inglês prevê a extensão no Real Arco, alguns o considerando um quarto grau, outros um grau lateral ao 3º (mestre), porém pela Grande Loja Unida da Inglaterra uma complementação (continuação) do grau de mestre. Sobre este assunto, afirma Anatoly (, 2004, p. 38), citando o Ato de União (Act of Union) da GLUI de 1813:

“Declara-se que a Maçonaria pura e antiga consiste em apenas três graus, nomeadamente os de Aprendiz, Companheiro e de Mestre, incluindo-se a Ordem Suprema do Santo Real Arco (Royal Arch).”


 
                                                                                                                
 
Portanto vê-se a compreensão do Real Arco, não como um grau superior, mas uma complementação do grau de mestre. No VADEMECUM MAÇÔNICO publicado pela Grande Loja Maçônica do Estado do Espírito Santo (Vademecum Maçônico 1999 - GLMEES) vê-se claramente outra citação sobre o assunto, quando relacionado aos antigos Landmarks (p.17):


“II – A divisão da Maçonaria Simbólica em três graus é um “Landmark” que, mais que qualquer outro, tem sido preservado de alterações apesar dos esforços feitos pelo daninho espírito inovador; certa falta de unanimidade acerca do ensino final da Ordem no grau de Mestre foi motivada por não ser considerado como finalidade o terceiro grau. Daí o Real Arco e os Altos Graus variarem no modo de conduzirem o neófito à grande finalidade da Maçonaria Simbólica. Em 1813, a Grande Loja da Inglaterra reivindicou este Landmark, decretando que a antiga Instituição Maçônica consistia nos três graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre, incluindo o Santo Real Arco. [...]









 


4.  NECESSIDADES DE ADEQUAÇÃO
 
 
Como visto o ritual emulação é a prática maçônica de origem inglesa praticada no Brasil com o incorreto nome de Rito de York. Desta forma é preciso enfatizar que não se está sugerindo alteração de rito/ritual, ao contrário, procura-se com este trabalho consolidar a prática emulação corrigindo alguns comportamentos que são estranhos ao método inglês tradicional. Quanto ao ritual emulação, a tradição inglesa de transmissão oral dos conteúdos da prática e a dificuldade, ou inibição, dos maçons brasileiros em pesquisar o ritual com certeza dificultaram a sua consolidação no nosso país. Assim, muitos rituais são cópias de cópias feitas sobre traduções mal feitas que desvirtuaram seu sentido e traíram sua pureza a todo custo preservada pela potência Mãe da maçonaria mundial. Hoje, porém, temos todas as condições de realmente praticarmos o ofício (simbolismo) sem imperfeições acarretadas por desconhecimento ou outras influências nefastas.

Desde 1969 o ritual emulação é editado em livro e disponível para pesquisa e estudo nos diversos países que o praticam. Sob autorização da Loja Emulação de Aperfeiçoamento de Mestres Maçons, curadora do emulation ritual, a editora maçônica inglesa Lewis Masonic (
www.lewismasonic.com) publica os rituais dos 3 graus do ritual emulação além de todas as outras cerimônias ligadas á prática inglesa, como sagração de templo, instalação de venerável, filiações, etc. Todos os rituais e monitores podem ser adquiridos pela internet, pois apesar de oficiais e sancionados pela Loja Emulação de Aperfeiçoamento, não são oriundos diretamente da Grande Loja Unida da Inglaterra. Isto decorre de antiga regra prevista na constituição da GLUI que, em ser art. 155, diz textualmente:


Os membros presentes em qualquer Loja devidamente chamados têm um direito indiscutível de implementar seus próprios procedimentos, contanto que estes sejam consistentes com as leis gerais e regulamentos da Arte; mas um protesto contra qualquer resolução ou procedimentos, baseados em que seja contrário as leis e costumes da Arte, e para o propósito de reclamação ou apelação a uma autoridade Maçônica maior, pode ser feita, e tal protesto poderá ser escrito no livro de Apontamentos se o irmão que fez o protesto assim o desejar.
 
Na primeira edição do ritual emulação, em 1969, 146 anos após a fundação da Emulation Lodge, foram vencidas muitas barreiras dentro da maçonaria inglesa fazendo o Comitê da Loja de Emulação se pronunciar da seguinte forma: Entretanto, os tempos mudam, e agora para o Comitê parece que aquelas razões outrora convincentes têm progressivamente se tornado menos importantes. Os membros do Comitê sentem que é chegado o tempo em que uma mudança política pode ser vantajosa às Lojas que preferirem trabalhar o sistema do ritual de emulação. Esse livro é resultado disso. (HARRY CARR, p. 151)

Já na sua oitava edição os rituais do ofício emulação são vendidos em todo o mundo e tem proporcionado grande homogeneidade nos trabalhos de emulação quer nas Lojas ligadas á Grande Loja Unida da Inglaterra quer nas outras potências que adotam esta prática ritual. Com cifras nas partes referentes aos segredos maçônicos é necessário que o detentor do ritual esteja com freqüência em uma loja para se familiarizar com as expressões que estão incompletas. Com cerca de 100 euros é possível importar todos os originais ingleses nos três graus simbólicos além de monitores para as práticas ritualísticas principais (sagração, instalação, etc.).

Não bastasse esta facilidade ímpar, já possuímos no Brasil publicações que traduzem do inglês todos os rituais nos três graus, em um caso, numa mesma publicação, facilitando ainda mais a aplicação do ritual emulação. Em especial na obra Emulação – História, Ritualística e Rituais (Vicentina, 2004) do autor Anatoly Ollynik, encontramos além dos rituais nos três graus, a cerimônia de sagração do templo, instalação do mestre da Loja e todas as preleções conforme feitas e praticadas pela Loja Emulação de Aperfeiçoamento. Insta ressaltar que este importante trabalho de tradução dos originais teve supervisão direta de maçons ingleses radicados no Brasil, que trabalham no emulação, sob autorização da Grande Loja Distrital da América do sul – Divisão Norte, da Grande Loja Unida da Inglaterra. É, portanto, um manual completo que esclarece dúvidas sobre procedimentos ritualísticos sendo suficiente para, integralmente, possibilitar que uma Loja que nunca tenha tido contato com o ritual o faça de modo correto.
  

  4.1  AÇÕES NECESSÁRIAS
 


Para maior desenvolvimento do ritual emulação na nossa potência necessário seria adotar medidas adequadas para maior difusão do mesmo, bem como, de modo simultâneo, revisá-lo para retirada das distorções atualmente praticadas. Estas distorções, involuntárias, foram ocasionadas com certeza pelo ineditismo da prática em solo capixaba e pela falta, á época, de fonte segura para consulta e estudo, utilizando-se muitas vezes, neste vácuo doutrinário, de procedimentos de outros ritos que já influem negativamente sua prática.

O rito/ritual não pode ser considerado um fim em si mesmo, logicamente. Mas a busca pela correta prática ritualística serve para mantermos puro todo o simbolismo inerente a Maçonaria estabilizando sua forma de ensinamento e transmissão de conhecimento através dos símbolos e alegorias, perpetuadas na prática ritualística. Assim, precisamos rever nosso ritual em detalhes que estão desvirtuando-o, como expressões, toques, sinais e palavras sagradas incorretamente traduzidas, andamento da sessão, formas de caminhar no templo, etc., que só poderão ser corrigidas com uma revisão completa dos rituais em consonância com as fontes seguras hoje disponíveis.

Para tal, necessária seria a criação de um grupo com Irmãos que atualmente já trabalham nesta prática (Loja Tiradentes e Loja Monte Sião), agregando outros interessados para discussão e uniformização de procedimentos e deliberação sobre a necessidade de fortalecermos o Ritual Emulação (inominado Rito Inglês) usufruindo de maneira indelével deste original e belo ritual maçônico. Uma medida adotada pela Grande Loja do Estado de São Paulo que pode ter seus efeitos benéficos seguidos aqui é o de permissão para dupla filiação para maçons em Lojas de ritos diferentes. Tal medida, mais ampla que o direito atual de cotização, garante ao maçom duplamente filiado exercer cargo e concorrer a eleições/linhas sucessórias em igualdade de condições dos demais, sendo ele considerado membro das duas Lojas.

Ainda, como forma de fazermos uma correção histórica sem precedentes no território nacional há que se estudarem revisões na Constituição da Grande Loja Maçônica do Estado do Espírito Santo bem como no seu Regulamento Geral de modo a corrigir o nome equivocadamente usado de Rito de York. Na verdade a melhor recomendação seria a de “acrescentarmos” como “rito” reconhecido pela GLMEES o ritual emulação, único praticado atualmente, porém mantendo também a expressão Rito de York de modo a não fechar as portas para futuras criações de Lojas dentro do ritual americano (Rito de York) evitando assim preocupações quanto possíveis conseqüências decorrentes da alteração do nome.

É preciso também reunir todos os esforços e conclamar irmãos que se interessem pelo tema para a criação de um Capítulo do Real Arco (no sistema inglês), sob patrocínio da Grande Loja Maçônica do Estado do Espírito Santo, como forma de difundir e aumentar o numero de lojas e irmãos trabalhando neste importante e legitimo trabalho (working), criando uma possibilidade muito grande para o reconhecimento por parte da Grande Loja Unida da Inglaterra ou, quiçá, integração nos Capítulos do Real Arco com a potência estrangeira.
 
 
      4.2   BENEFÍCIOS ESPERADOS

 
Além de todas as vantagens trazidas pela recuperação do ritual e retorno às suas origens históricas, o que por si só já justificaria todo este esforço, não podemos olvidar que esta medida pode somar-se a todas as outras ações feitas no sentido de maior aproximação com a Loja Mãe do Mundo. A Grande Loja Unida da Inglaterra reconhece em território brasileiro, além do Grande Oriente do Brasil, as Grandes Lojas Maçônicas dos Estados de Rio de Janeiro, São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Desde 1999 a Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo é reconhecida pela Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra, mesmo ano da instalação do Supremo Grande Capítulo do Santo Real Arco de Jerusalém, sendo criados os três primeiros capítulos do Real Arco na América Latina para complementação do emulação, sendo aberto também a maçons de outros ritos. Ainda poderemos, mais uma vez, estar na vanguarda dos acontecimentos corrigindo erros históricos que, inadvertidamente, repetimos.

Assim a ampliação nos documentos oficiais de nossa Potência do Ritual Emulação nos colocará, com certeza, na dianteira de fatos que fatalmente, em tempo futuro, ocorrerão. Ademais, o reestudo de toda a prática ritual ligada ao emulação no Espírito Santo propiciará maior interação entre os praticantes do mesmo ofício e poderá motivar ainda outros maçons capixabas a estudá-lo e dele participarem.

 
 
5.  CONCLUSÃO
 
 
A prática ritual, ou o rito, não é um fim em si mesmo, como já defendido, mas transforma-se num processo especial de transmissão de ensinamentos e valores que fazem da Maçonaria uma sublime Instituição. Como inquiridores da “verdade” os maçons não podem desistir desta tarefa árdua do seu aperfeiçoamento pessoal, moral e intelectual, desbastando imperfeições, mesmo com grande sacrifício.

Há a necessidade premente de ampliar a discussão em torno deste importante tema, visando avançarmos para unificar procedimentos ritualísticos do emulation ritual (ritual emulação) emanado pela Grande Loja Unida da Inglaterra, conhecida como Loja Mãe do Mundo, como o mais original e antigo ritual desenvolvido na maçonaria, a partir da organização administrativa das Lojas.

A maçonaria capixaba deu grande avanço em implementar a prática maçônica inglesa em seu solo, aumentando sua capacidade interlocutora com outras potências mundiais, que na sua maioria, praticam tal “rito”. É hora de elogiarmos os pioneiros por estes avanços, sem os quais, nossos olhos estariam ainda vendados para tão importante prática ritualística secular.

A maçonaria ensina a todos que dela participam que devemos ter a capacidade de “rever caminhos anteriormente percorridos”, garantindo um aperfeiçoamento pessoal contínuo e o reparo das imperfeições do passado. Desta forma, oportuno é lembrarmos a indagação do inglês William Shakespeare na clássica peça teatral A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca, que no original, nos indaga: To be or not to be, that's the question. Então é hora de refletirmos, ser (no sistema inglês) ou não ser, eis a questão. Com este pensamento, é concluso que chegou a hora, agora, de melhorarmos aquilo que já está muito bom.
 
 
6.  REFERÊNCIAS
 
  • A Grande Loja em Destaque, Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo, São Paulo, p. 04-06, nov. 2003.
  • CARR, HARRY. O Ofício do maçom. São Paulo: MADRAS. 2007.
  • CASTELLANI, JOSÉ; RODRIGUES, RAIMUNDO. Análise da Constituição de Anderson. Londrina: A TROLHA. 1995.
  • CRUZ, ALMIR S. Simbologia maçônica dos painéis: lojas de aprendiz, companheiro e mestre. Londrina: A TROLHA. 1997.
  • DYER, COLIN. O simbolismo na maçonaria. São Paulo: MADRAS. 2006.
  • FIGUEIREDO, JOAQUIM G. de. Dicionário de Maçonaria: seus mistérios, seus ritos, sua filosofia, sua história. São Paulo: PENSAMENTO. 2004.
  • GLMEES. Constituição e Landmarks: texto constitucional promulgado em 11 de dezembro de 2004. Vitória: Grande Loja Maçônica do Estado do Espírito Santo, 2ª edição 2007.
  • GLMEES. Ritual do Grau de Aprendiz-Maçom (emulação). Vitória: Grande Loja Maçônica do Estado do Espírito Santo. 2004.
  • GLMEES. Vademecum Maçônico. Vitória: Grande Loja Maçônica do Estado do Espírito Santo. 1999.
 
  • GLUI (Grande Loja Unida da Inglaterra). Disponível em: <http://www.ugle.org.uk>. Acesso em: 10 out. 2008.
  • GOB. Cerimônias Exatas do rito de York (emulation ritual): 1º grau – aprendiz. Brasília: Grande Oriente do Brasil. 1999.
  • LEWIS MASONIC. Editora Lewis Masonic. Disponível em: <http://www.lewismasonic.com>. Acesso em: 08 out. 2008.
  • OLIYNIK, ANATOLY. Emulação: história, ritualística e rituais. Curitiba: VICENTINA, 2004. 529 p.
  • RITO DE YORK. Portal Rito de York. Disponível em: <http://www.ritodeyork.com.br>. Acesso em: 13 out. 2008.
  • SANDBACH, RICHARD. Por dento do Arco Real. São Paulo: MADRAS. 2005
                                                                                                             

   
Copyright © 2017 Maçonaria Virtual